PERNAMBUCANAS: o primeiro varejo a gente nunca esquece.

1-Cultura Empresarial Sueca e uma  contribuição singular ao Brasil:

Em 25 de setembro de 1908, nascia a PERNAMBUCANAS. Em 2018, a empresa e a marca farão 110 anos de vida. E eu me sinto muito honrado e muito grato, pois fui funcionário das PERNAMBUCANAS e considero que ela foi a minha primeira escola prática de Propaganda, Marketing, Atendimento e Vendas. E por incrível que possa parecer agora, todas essas coisas funcionavam de modo integrado e sistêmico.

Há alguns fatos sobre essa empresa que pouca gente tem na memória:

  • O fundador, um sueco chamado Herman Theodor Lundgren, chega ao Brasil em 1855 e cria vários negócios, até que, em 1904, adquire a COMPANHIA DE TECIDOS PAULISTA, no Estado de Pernambuco. Herman percebe que há um grande potencial no negócio têxtil  e começa a estudar o que fazer para  distribuir seus tecidos em todo o Brasil, para ter um negócio capaz de captar riqueza em âmbito nacional. Sempre que conto essa história, procuro destacar que foi um sueco que começou isso no Brasil e não um português ou espanhol. Ou seja, não foi nenhum ibérico e sim um sueco, com sua cultura e hábitos disciplinados. Herman faleceu em 1907, mas seus filhos Herman, Frederico, Alberto e Arthur haviam sido preparados pelo pai para  dar continuidade à empresa;
  • Em 1908, os filhos inauguram a primeira loja das CASAS PERNAMBUCANAS iniciando aquilo que seria a maior Rede de Lojas que o país viria a conhecer. A combinação perfeita entre Fábrica e Lojas dava a INTEGRAÇÃO VERTICAL ao negócio. Além disso, Herman cuidou para que os produtos que fabricava tivessem diferenciais expressivos em relação às fabricas concorrentes:  seus tecidos tinham uma qualidade superior e que não desbotavam, ou seja, não perdiam as cores com as lavagens das roupas, entre outros diferenciais. Os vendedores das lojas PERNAMBUCANAS eram treinados para explicar que:  os tecidos dos concorrentes eram piores, pois eram tingidos depois de prontos, depois que saíam dos teares. Já os tecidos Marca Olho, somente encontrados nas CASAS PERNAMBUCANAS, não eram tingidos e sim feitos a partir de fios coloridos, por isso não soltavam as cores, não desbotavam.  Era um diferencial de tecnologia dos Lundgren.  A maioria das fábricas de tecidos concorrentes ficava no Rio de Janeiro e não tinha a mesma tecnologia.
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Acima, duas fotos da COMPANHIA DE TECIDOS PAULISTA, um enorme complexo fabril de Pernambuco, criado pela Família Lundgren e uma foto do que restou das Fábricas, após o regime de 64.

É interessante ver o filme, pois ele mostra alguns aspectos do complexo industrial que foi o ponto de partida da maior rede varejista do Brasil, que acabou sendo “desmontado” nos anos Governo Militar.
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Nas fotos abaixo, a primeira loja de São Paulo, na Praça da Sé, e algumas das pequenas lojas das CASAS PERNAMBUCANAS, abertas em pequenas e médias cidades do Brasil.

  • Em 1910, numa decisão ousada, a família inaugura a loja da Praça da Sé em São Paulo, visando promover fortemente a distribuição dos produtos que fabricava em Pernambuco. A empresa também percebia que para fazer o que desejava, precisaria de PROPAGANDA. São  Paulo daquela época tinha algumas das lojas mais sofisticadas do país, como o MAPPIN STORES, por exemplo, que trazia produtos da Europa, notadamente de Londres, para atender as demandas das pessoas da alta sociedade paulistana, os grandes ricos da Indústria Paulistana e os barões do Café. Havia poucas lojas populares e empresa já buscava atender esse público, muito maior mas com renda bem menor, daí seu slogan desde então: CASAS PERNAMBUCANAS, ONDE TODOS COMPRAM.
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Nas fotos acima, lojas das CASAS PERNAMBUCANAS e aspectos internos de algumas lojas. O principal produto das PERNAMBUCANAS eram os tecidos, numa época em que no Brasil as confecções eram ainda algo muito incipiente.

  • Entre 1910 e 1920, é inaugurada mais uma série de lojas das PERNAMBUCANAS, num momento em que ocorria um grande desenvolvimento do setor têxtil no Brasil, onde as 2 empresas, a CIA PAULISTA DE TECIDOS e as  CASAS PERNAMBUCANAS teriam um papel ativo e forte. Já nos anos 20, a empresa busca conhecimento fora do Brasil e acaba trazendo o MANUAL DE PROCEDIMENTOS DE PROPAGANDA E ATENDIMENTO. Com ele, a empresa faz com que  os gerentes e subgerentes das lojas sejam diretamente envolvidos nos processos de CRIAR RECLAMES para a divulgação em Circos e Cinemas. As Emissoras de Rádio ainda eram uma novidade, TV não existia e jornais e revistas eram apenas para a elite que sabia ler, que fora escolarizada. Nessa mesma época, a empresa inaugurou uma nova fábrica na cidade de Rio Tinto, na Paraíba, pois já não estava dando conta da demanda.
  • Na década de 30, todos os funcionários das CASAS PERNAMBUCANAS passam a ser envolvidos diretamente no trabalho de PROPAGANDA da Rede de Lojas. São criados procedimentos para PROPAGANDEAR em todos os lugares possíveis. Os funcionários, de modo sagrado, pelo menos em um domingo do mês, se reuniam e, com latas de tinta nas mãos, saiam pintando porteiras, estacas de cercas, árvores, postes, enfim, tudo o que encontravam pela frente. As regras eram muito simples: um grupo de pessoas pintava um fundo preto usando “piche”, e um outro grupo, vinha depois e sobre aquele fundo, com “tinta fosforescente na cor prata”, escrevevia dizeres como: PERNAMBUCANAS, ONDE TODOS COMPRAM.  Isso virou uma forma clássica de PROPAGANDA das CASAS PERNAMBUCANAS. Era a época do Café e o Estado de São Paulo era a grande locomotiva econômica do país. A PERNAMBUCANAS decidiu então expandir e abrir lojas onde houvesse estrada de ferro, por onde era escoado o Café Paulista para o Porto de Santos, que daí iria para a Europa. Cada cidadezinha do Estado de São Paulo que tinha uma plantação de Café, tinha o seu momento da  Safra de Café, que era a grande oportunidade para a PERNAMBUCANAS vender seus tecidos, pois as pessoas tinham o dinheiro da safra e podiam compram roupas e outros itens para seus familiares.
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A propaganda das CASAS PERNAMBUCANAS era feita não por publicitários, mas pelos próprios funcionários: vendedores, aprendizes de vendedores, gerentes e subgerentes – todos iam para as estradas e “pintavam” as mensagens PERNAMBUCANAS, ONDE TODOS COMPRAM em todos os lugares que fosse possível.

  • Nos anos 40, os funcionários das CASAS PERNAMBUCANAS eram considerados “autoridades” nas cidadezinhas onde haviam lojas. Eles eram tão relevantes e prestigiados quanto os funcionários de Prefeituras, dos Correios e do Banco do Brasil. E trabalhavam uniformizados: com camisa branca e gravata. A empresa criou um código de conduta e respeitabilidade para o tratamento dos clientes e entre os funcionários. Todos se tratavam por “senhor” e “senhora”, independentemente da idade.  Os gerentes das PERNAMBUCANAS recebiam treinamento rigoroso e, até mesmo quando iram chamar a atenção de um funcionário que estivesse fazendo algo errado, ele deveria dizer: “o senhor não está cumprindo as suas tarefas adequadamente”. RESPEITO ao Cliente e respeito com os colegas de trabalho estava no “sangue” do fundador Herman Ludgren.
  • Além disso, RESPEITO ao país e HONESTIDADE EMPRESARIAL também faziam parte do sistema PERNAMBUCANAS: para tudo aquilo que era vendido, era emitida uma Nota Fiscal. Não havia nenhuma possibilidade de INFORMALIDADE fiscal. O Brasil merecia respeito e honestidade e todos os gerentes, subgerentes, vendedores e colaboradores sabiam disso claramente. Ninguém poderia romper essa regra de ouro da LEGALIDADE. Um presente sueco de Herman Lundgren para que os brasileiros pudessem saber qual era o jeito certo de fazer as coisas nos negócios, pena que isso não foi incorporado a nossa cultura de negócios, pena que isso se perdeu no tempo.
  • Na década de 40, as Marcas Próprias das PERNAMBUCANAS já eram conhecidas em boa parte do Brasil: Tecidos OLHO (que nunca desbotam) , Camisas e Cuecas LUNFOR (as mais elegantes para o homem) somente eram encontradas nas PERNAMBUCANAS e em nenhuma outra loja. Ou seja: desde o princípio, a PERNAMBUCANAS tinha em sua Oferta uma certa quantidade de PRODUTOS EXCLUSIVOS com Marca Própria, uma lição de varejo que muita gente ainda não aprendeu, disponível para quem quer estudar um pouquinho de história do varejo brasileiro, inspirado numa visão Europeia-Sueca. Vivíamos no Brasil uma época de pouca oferta de produtos de qualidade, e a PERNAMBUCANAS, com suas Marcas Próprias, criava um “território na mente de consumidores” de que eles encontrariam na lojas os produtos com melhor qualidade, teriam acesso aos itens que combinavam com seu elevado nível de exigência. Me lembro de que nos anos 80, o Brasil discutiu a chegada das Marcas Próprias nos supermercados, com produtos de embalagens brancas…Uma idéia nova nos anos 80 que a PERNAMBUCANAS usava desde 1930.
As Marcas Próprias das CASAS PERNAMBUCANAS fizeram sucesso desde os anos 30. A empresa promovia os tecidos da MARCA OLHO, exclusividades em suas lojas. Eram tecidos que TINHAM CORES FIRMES e não desbotavam nunca. A empresa praticamente ensinou algumas gerações de brasileiros- bem como costureiras e alfaiates de todo o país – que os TECIDOS MARCA OLHO eram os mais confiáveis. Quantas REDES DE LOJAS já tê, nos dias de hoje, políticas de Marcas Próprias?

As Marcas Próprias das CASAS PERNAMBUCANAS fizeram sucesso desde os anos 30. A empresa promovia os tecidos da MARCA OLHO, exclusividades em suas lojas. Eram tecidos que TINHAM CORES FIRMES e não desbotavam nunca. A empresa praticamente ensinou algumas gerações de brasileiros- bem como costureiras e alfaiates de todo o país – que os TECIDOS MARCA OLHO eram os mais confiáveis. Quantas REDES DE LOJAS já tê, nos dias de hoje, políticas de Marcas Próprias?

  • Vieram as décadas de 50 e 60. As CASAS PERNAMBUCANAS já eram uma Rede de 400 lojas, sendo que a região mais forte era o Estado de São Paulo. Nessa época, os quadros de Vendedores das lojas eram compostos por dois grandes grupos: Vendedores com salários fixos e comissões, e Aprendizes de  Vendedores, que tinham apenas salários fixos. Isso possibilitava criar uma cultura voltada para os dois grandes objetivos de cada loja: (1)  trazer consumidores para dentro das lojas e (2) fazer vendas para eles. Isso permitia que a empresa fizesse uma ampla integração com as comunidades onde tinha loja, pois seu pessoal atuava “dentro” e “fora” da loja: dentro das lojas, a atuação mais forte era dos Vendedores, que faziam o Atendimento e Vendas; e fora das lojas, o trabalho maior cabia aos Aprendizes de Vendedor e outros, coordenados por gerente e subgerentes.  Os aprendizes de Vendedor saíam das lojas para visitar as escolas, para visitar os fazendeiros, os comerciantes não-concorrentes das PERNAMBUCANAS, para ir nas casas onde haviam nascido bebês, para visitar as famílias que haviam perdido um ente querido, para ir nas festas de 15 anos, para as festas de formatura, enfim,  para estar presentes nos momentos importantes das pessoas da comunidade. Nenhuma outra empresa varejista fez tão bem o trabalho de PROMOÇÃO DA PORTA PRA FORA indo buscar consumidores e indo relacionar-se com seus clientes como fez a PERNAMBUCANAS. Isso ainda merece um estudo e uma revisão para saber se é possível retomar esse conceito agora no século XXI, com novas tecnologias, internet e tudo o mais.
  • Na década de 60, as CASAS PERNAMBUCANAS entraram também na mídia TV. Neste momento começava um novo ciclo de Propaganda, com a marca protagonizando alguns dos mais famosos comerciais de TV de toda história publicitária do Brasil.

Veja dois dos clássicos comerciais de TV dos anos 60 das PERNAMBUCANAS,  um de Inverno e outro de Natal.

Quem bate? É o frio!! / Não adianta bater / eu não deixo você entrar / as CASAS PERNAMBUCANAS é que vão, aquecer o meu lar…)

(Dezembro vem o Natal / Os presentes mais bonitos  / As lembranças mais humanas / Pra seus entes queridos todos vão comprar / Nas CASAS PERNAMBUCANAS…)
Ambos, contém JINGLES classicos e inesquecíveis das PERNAMBUCANAS.

2- A minha primeira Escola Superior de Propaganda e Marketing, na prática:

  • Eu entrei nas PERNAMBUCANAS como Aprendiz de Propaganda aos 14 anos de idade, lá nos anos 60. Me lembro bem de que, naqueles anos 60, corria solta uma historieta que dizia:“Um lugar só é considerado URBANO, só é considerado CIDADE se tiver três requisitos: tem que ter uma igreja católica no centro; tem que ter um lugar que vendesse Coca-Cola e tem que ter uma loja das Casas Pernambucanas”. Na década seguinte, nos anos 70, eu vim para São Paulo, deixando a região de São José do Rio Preto, onde funcionava a REGIONAL das CASAS PERNAMBUCANAS. Naqueles difíceis anos 70, a rede ainda criaria o  “Crediário Tentação PERNAMBUCANAS” e passaria a “cadastrar” seus clientes e a atuar com um Sistema Simplificado de Score para atribuir crédito. Naqueles anos 70, a cidadezinha de Palmeira d’Oeste perdia a sua loja PERNAMBUCANAS, que fechava suas portas em função da crise econômica e do crescimento da informalidade.
  • Trabalhei inicialmente na cidade de Palmeira d’Oeste, depois nas cidades de Jales, Fernandópolis, Votuporanga e finalmente em São José do Rio Preto, como Aprendiz de Propaganda, conforme consta na minha carteira profissional de menor de idade. As CASAS PERNAMBUCANAS eram a grande potência do varejo brasileiro. E na nossa região de São José do Rio Preto, havia cerca de 50 lojas das PERNAMBUCANAS. Ela era a maior distribuidora brasileira de tecidos. As famílias compravam tecidos e faziam – com as costureiras e alfaiates locais – os vestidos, calças, saias, ternos, camisas, etc. Na época, duas outras redes de lojas tentavam competir com a PERNAMBUCANAS : as LOJAS RIACHUELO e as CASAS JARAGUÁ. A primeira existe até hoje e a segunda, que pertencia ao Grupo Votorantim, fechou as portas ainda nos anos 60. E havia ainda os pequenos lojistas locais, brigando para sobreviver com seus pequenos negócios, muitos deles totalmente na informalidade.
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Todas as lojas das CASAS PERNAMBUCANAS contavam com o apoio dos Carros Volantes de Som, que circulavam pelas ruas das cidades com os alto-falantes em alto e bom som, tocando os JINGLES e as MENSAGENS publicitárias da empresa, buscando convencer as pessoas a irem até as lojas para ver as novidades em tecidos.

Essas equipes eram compostas de Motoristas e Aprendizes de Propaganda que, como eu, tinham o trabalho de “falar ao microfone” e convencer as pessoas a irem até as lojas…Além das mensagens “áudiofônicas” faladas nos alto-falantes voltantes, os veículos também distribuíam panfletos com mensagens impressas, vindas da Matriz da Rede.

  • Eu tinha 14 anos de idade e tive a grande sorte de ser contratado como Aprendiz de Propaganda pelo senhor Jaime, um Gerente Regional das CASAS PERNAMBUCANAS.  Jaime me viu fazendo a locução de um jogo de futebol entre o time de Palmeira e o time de Jales. Depois, viu outras coisas que eu fazia, como desenhos e textos, e então foi conversar com meu pai e disse a ele:  “Esse menino desenha bem, escreve bem e fala bem no microfone. Ele pode ter um grande futuro nas CASAS PERNAMBUCANAS. Nós temos uma vaga de Aprendiz de Propaganda que pode ser boa para ele, se o senhor autorizar, já que ele é menor de idade”.
  • Meu pai concordou e autorizou, pois a família precisava de renda e não havia empregos na cidade. Naquele momento, me senti adotado e apadrinhado. Eu ainda não tinha ideia do impacto que aquele fato teria na minha vida pessoal e profissional. Foram 3 anos de intenso aprendizado sem que eu tivesse sequer a consciência da importância e de tudo aquilo que estava aprendendo. Meu avô foi o único a ser contra e disse: “eles vão pagar uma miséria pro menino, porque ele é “de menor”. Vai ser uma exploração…”. De qualquer modo, eu estava empregado e iria começar em uma profissão: Aprendiz de Propaganda nas CASAS PERNAMBUCANAS. Deveria ir até a loja local e lá mesmo começaria a trabalhar como Aprendiz.

3- Revelações vitais sobre a profissão e sobre o marketing:

  • No meu primeiro dia de trabalho, eu esperava que o gerente me dissesse o que eu deveria fazer. Estava ansioso para saber quais seriam minhas tarefas. O gerente da Loja me recebeu e, olhando bem nos meus olhos, perguntou:  “Você está no colégio?” . Eu acenei com cabeça que sim.

Então ele continuou:  “Sabe a diferença entre TRABALHO e TAREFA?”

Eu disse que não e ele continuou: “Então vamos explicar: TAREFAS e ROTINAS são as coisas que você faz e que você tem que fazer para que o TRABALHO dê certo, mas TRABALHO é outra coisa…”
Aquilo estava dando um nó na minha cabeça, então ele foi em frente:

Como Aprendiz de Propaganda você tem que saber – e nunca esquecer – que o seu TRABALHO é TRAZER PESSOAS PARA DENTRO DA LOJA, TRAZER PESSOAS PARA COMPRAR. Esse é o seu TRABALHO…Como você vai fazer isso são as suas TAREFAS, as suas ROTINAS… Mas, faça o que fizer, nunca se esqueça de que o VERDADEIRO TRABALHO é TRAZER PESSOAS PARA DENTRO DA LOJA PARA QUE ELES COMPREM. Isso é o que realmente importa”.

  • Aquilo causou um grande impacto na minha mente. Foi uma grande revelação e talvez uma das maiores lições de Marketing que eu teria em toda a minha vida.

Eu mal havia recebido a primeira lição e veio outra, quando ele disse: “As TAREFAS e as ROTINAS são mais simples. Pegue este calendário promocional e estude com carinho. Faça acontecer tudo o que está no calendário. Ele é o resumo dos 50 anos de sucesso da nossa empresa”.

Eu não tinha a menor ideia do que ele estava dizendo. Então ele pegou um livrão, com cerca de 50 páginas, em cuja capa estava escrito: CALENDÁRIO PERNAMBUCANAS. Abriu e mostrou-me as anotações ao lado dos meses do ano:

JANEIRO: Ano Novo Vida Nova
FEVEREIRO: Carnaval de Saldos e Retalhos
MARÇO: Coleção Outono-Inverno
ABRIL: Dia do Índio + Descobrimento do Brasil
MAIO:  Mães
JUNHO: Festas Juninas .
JULHO:  Férias
AGOSTO: Pais
SETEMBRO: Coleção Primavera-Verão
OUTUBRO: Dia da Ave + Criança
NOVEMBRO: Natal  1
DEZEMBRO:  Natal 2

Depois que olhei o calendário cuidadosamente tentando entender o que ele queria dizer, ele pigarreou e calmamente me disse:  “Essas coisas precisam acontecer DENTRO das Lojas. A clientela vem para a Loja para comprar coisas novas no começo do ano, em Janeiro. Em Fevereiro, fazemos a nossa tradicional Liquidação de Saldos e Retalhos, onde vendemos as sobras de tecidos expostas de uma forma diferente, para chamar mais atenção. Em março, chegam novas mercadorias, que vêm das Fábricas, para promovermos como Coleções para Outono-Inverno…”

Então perguntei:  “E por que tem NATAL duas vezes? Natal 1 e Natal 2. Nos outros meses tudo é só uma vez…”

O gerente riu e disse: “O Natal é o nosso maior momento de vendas. Por isso a gente divide o Natal em duas campanhas, Natal 1 e Natal 2”. A gente promove mercadorias já um mês antes, porque algumas pessoas gostam de se preparar e fazer as compras de Natal com antecipação. Mas a maioria deixa para a última hora e isso faz o nosso Natal 2 ser a campanha mais forte de todo o ano”.

Por fim, ele disse: “Esse CALENDÁRIO é para você estudar aqui na Loja. Ele não pode sair da loja em nenhuma hipótese. E você precisa assinar uma termo de que não vai falar nada sobre ele para nenhuma pessoa da cidade, para ninguém, mesmo que não trabalhe nas PERNAMBUCANAS. É um documento sigiloso da empresa”.

Obviamente eu assinei e passei a ter o “direito de estudar” aquele rico livrão que registrava o conhecimento vivido e consolidado da empresa.

Não demorou muito tempo para que eu compreendesse aquilo tudo. O calendário dava uma previsão de tudo o que iria acontecer com as campanhas de promoção e propaganda da Loja. Nas CASAS PERNAMBUCANAS, tudo girava em torno daquele calendário aparentemente simples. Era um conhecimento consolidado depois de anos e anos de trabalho sistemático e integrado entre PRODUTOS (os itens que chegavam das fábricas), EXPOSIÇÃO e EXIBIÇÃO dos produtos dentro da loja, PROPAGANDA E DIVULGAÇÃO daqueles itens nas mídias locais.

O Calendário também tinha uma interligação com a cidade toda: com as famílias, com as celebrações religiosas, com os eventos escolares (No Dia do índio, Descobrimento do Brasil e Dia da Ave, eram realizados concursos  que atraíam meninos e meninas do grupo escolar e do ginásio para virem com seus pais até a Loja).

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As CASAS PERNAMBUCANAS tinham presença constante nas Escolas, com seus concursos culturais, com suas campanhas educativas sobre a SEMANA DA AVE, sobre o DESCOBRIMENTO DO BRASIL, bem como presença nas festas e celebrações religiosas das comunidades. Afinal, ela vendia TECIDOS para as roupas novas para a Formatura, para a Primeira Comunhão e todos os eventos relevantes da comunidade.

O calendário também tinha relação direta com as campanhas de propaganda das lojas concorrentes.  As mídias eram: os funcionários das lojas, as áreas de exposição das lojas, o carro de som volante que fazia propaganda audiofônica e distribuía folhetos e panfletos nas ruas, além de propagandas irradiadas nas Emissoras de Rádios locais.

4- Ensinamentos que podem se perder no tempo…

Muitos anos depois, já na Faculdade, li sobre Calendário Promocional de Varejo e me diverti muito. Reconheci que a experiência vivida era muitíssimo mais rica que o texto teórico que li. Depois de muitos anos, já em São Paulo, fui funcionário do MAPPIN, outro gigante do varejo nacional. Fui novamente funcionário das PERNAMBUCANAS e,  finalmente, fui funcionário do Grupo PÃO DE AÇÚÇAR na época da SANDIZ, MINI BOX, JUMBO ELETRO, PÃO DE AÇUCAR e outras marcas.

Alguns anos depois, já no SENAC, procurei livros sobre MARKETING DE VAREJO e sobre CALENDÁRIO PROMOCIONAL, mas a  única bibliografia em português que encontrei foram dois livros.

1)- MERCHANDISING: A ESTRATÉGIA DE MARKETING, de Ruy B. Chalmers. Editora Atlas, 1971.

2)- MANUAL DE PROMOÇÃO DE VENDAS, de Ruy B.Chalmers, Editora Civilização, 1965.

Estes livros tratam do tema e ambos contém exemplos de  Calendário que integram COMPRAS, ABASTECIMENTO, EXPOSIÇÃO e PROMOÇÃO.  Um dia, ainda irei resgatar esse conhecimento que parece ter se perdido no tempo… (Esses dois livros foram vitais quando trabalhei no SENAC e tive que criar os cursos de Marketing de Varejo – tema para outro artigo futuro).

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Até hoje, os fundamentos daquele CALENDÁRIO PROMOCIONAL das CASAS PERNAMBUCANAS continuam válidos. Nada substancial mudou desde então. Eu realmente aprendi fazendo,  graças aos bons gerentes das PERNAMBUCANAS e à sua paciência em explicar-me como as coisas funcionavam. Eu era apenas  um menino curioso e ansioso por aprender.

As PERNANBUCANAS, muitos diriam depois, cometeram erros e passaram a conviver com muitas dificuldades entre os anos 80 e 90. Alguns analistas chegaram a escrever em jornais e revistas de negócios que houve problemas ligados ao sucesso e à sucessão. Não quero entrar aqui em nenhum desses pontos e sim apenas ressaltar que, apesar de todas as dificuldades e problemas, as PERNAMBUCANAS ainda são a  REDE que está em primeiro lugar no varejo brasileiro, com 6 BILHÕES de faturamento-ano e que, depois dela, vem C&A, RENNER, RIACHUELO, MARISA, HAVAN, LEADER, CIA HERING, IN BRANDS, RESTOQUE, AVENIDA, AREZZO,  SBF (CENTAURO e outras), segundo números da Exame.

Daqui a pouco, em 25 de Setembro de 2018, as PERNAMBUCANAS farão 110 anos de vida. Isso vai merecer uma celebração por todos que colaboraram e que aprenderam com ela. Com o lugar que hoje ocupa na história e na relevância do varejo brasileiro, as PERNAMBUCANAS ainda podem surpreender e INOVAR criando coisas novas, desde que não se deitem na arrogância do sucesso do passado.

Prometo que em artigos futuros vou falar mais sobre as PERNAMBUCANAS e sobre minha grande dívida de aprendizagem com essa rede varejista.

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Texto de: Augusto Nascimento, consultor de Branding e Marketing da Innovax-BBI Consultoria, do Grupo BBI. Ficam autorizadas cópias para fins de divulgação um-a-um (exceto publicação), desde que citado este site como fonte, bem como o autor do artigo. Para contatar o autor, ligue para (11) 2338.4939 ou então envie mensagem através do formulário deste site.