Branding, tudo junto e misturado: Bob Dylan, Prêmio Nobel, Literatura e Editora Abril.

1- Bob Dylan compôs muitas canções relevantes e escreveu poucos livros (irrelevantes).

Parece que Bob Dylan escreveu e publicou um ou outro livro, mas sem relevância para a Literatura. O mais conhecido deles é TARÂNTULA, que foi na verdade um panfleto típico da contracultura dos anos 60, que era vendido não em livrarias, mas nas ruas e em portas de teatros, por pessoas que eram “contra o sistema”. No Brasil, esse livro foi publicado nos anos 70 pela LIVRARIA BRASILIENSE, do famoso editor Caio Graco Prado, que publicou também as coleções ENCANTO RADICAL e PRIMEIROS PASSOS. A Brasiliense era um reduto da esquerda que enfrentava o regime militar publicando para elevar a consciência do população. Mas a literatura de Dylan não fez sucesso algum e seus livros podem ser encontrados em lojas de usados, os famosos “sebos”.

O grande trabalho de Bob Dylan foi mesmo na CANÇÃO POPULAR, na CANÇÃO DE PROTESTO que explodiu nos anos 60 e 70. Seus discos e seus shows marcaram os anos 60 e 70, época de grande rebeldia juvenil no mundo todo.

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Com a Canção, com Música Popular, ocupando os gêneros American Folk, Blues, Rock, Country e Gospel, ele recebeu vários  Grammy Awards (prêmio da música nos EUA) o Oscar em música (para cinema) e até um Pulitzer (prêmio especial  de jornalismo).

Em 2012, Dylan recebeu a medalha presidencial de Liberdade, uma condecoração feita que ele recebeu das mãos do presidente democrata  Barack Obama  a “awarded the Presidential Medal of Freedom” (Medalha da Liberdade) pelo seu trabalho que tematiza as questões sociais. E agora, a entidade que organiza o NOBEL Prize escolheu Dylan como o ganhador do PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA de 2016.

Obama homenageou Dylan em 2012. Agora em 2016, o Prêmio NOBEL faz o mesmo, mas procura enfatisar que GANHA O NOBEL QUEM PROPÕE IDEIAS PARA MUDAR O MUNDO. O NOBEL está preocupado com o Branding do Prêmio e sua relevância mundial.

Obama homenageou Dylan em 2012. Agora em 2016, o Prêmio NOBEL faz o mesmo, mas procura
enfatisar que GANHA O NOBEL QUEM PROPÕE IDEIAS PARA MUDAR O MUNDO.
O NOBEL está preocupado com o Branding do Prêmio e sua relevância mundial.

Muitos escritores, autores e intelectuais ficaram decepcionados com a escolha, e isso tomou conta da imprensa. Muitos jornalistas e críticos de cultura e literatura disseram que foi um erro do NOBEL, já que tantos grandes escritores ainda não foram contemplados. Ou seja, muitos acreditam que Dylan não devia receber o prêmio porque não é um escritor de verdade, e sim um cancioneiro.

Eu, como profissional de Branding, penso que o NOBEL fica mais popular no mundo todo ao escolher BOB DYLAN para premiar. Isso gera um tipo de polêmica que agrada os intelectuais e ajuda a produzir notícias e reportagens de todos os tipos. Gera também muito comentário e post nas redes sociais.

Enfim, GERA ALGO QUE O PRÊMIO NOBEL talvez esteja precisando, em termos de Branding, para ampliar a sua Imagem de Marca.

Explico: o Prêmio NOBEL é diretamente ligado à CULTURA ERUDITA, mas para ter mais relevância e obter mais mídia espontânea, o NOBEL precisa aliar-se à CULTURA POP.

Me lembro das fantásticas  aulas de TEORIA DA CULTURA que tive com a professora Gerusa em 1975, que brilhantemente explicava:  pela Teoria da Cultura, temos na realidade dois tipos de CULTURAS na sociedade, a CULTURA DA ELITE e a CULTURA DO POVO. Entre ambas, como um área de instersecção nasce a CULTURA POP com chegada do Rádio (anos 20, do século XX)  e as demais Mídias de Massa (cinema, disco, televisão…).

Quanto mais as sociedades se URBANIZAM, mais a CULTURA DO POVO vai desaparecendo, e em seu lugar, ganha espaço a CULTURA POP, que é a MIDIATIZAÇÃO entre a CULTURA ERUDITA e a POPULAR.

Quanto mais as sociedades se URBANIZAM, mais a CULTURA DO POVO vai desaparecendo, e em seu lugar,
ganha espaço a CULTURA POP, que é a MIDIATIZAÇÃO entre a CULTURA ERUDITA e a POPULAR.

A CULTURA ERUDITA, onde o Prêmio NOBEL sempre teve seu espaço e a difusão de sua Marca, é muito limitada para que a Marca PRÊMIO NOBEL  aumente a sua importância e os seus produtos neste século XXI.  Assim, é natural que a Organização do Prêmio procure encontrar modos de “flertar” com a cultura de massa ou cultura POP, pois desse modo ela amplia significativamente o seu poder de penetração junto à população mundial. Não se pode esquecer que o PRÊMIO NOBEL, quanto mais pessoas populares premia, mais popular se torna. Em outros termos, eu diria que Bob Dylan é muito conhecido, é  bastante reconhecido e é muito “amado” por fãs do mundo todo. Sua “literatura” não é “erudita” e nem apenas racional e fria. Ela é EMOTIVA, EMOCIONANTE e MOBILIZADORA a ponto de criar vínculos afetivos com as pessoas.

Penso que o PRÊMIO NOBEL, em termos de Branding,  está buscando um pouco de BOB DYLAN, do seu EMOCIONAL , do seu brado TRANSFORMACIONAL para o mundo, para agregar à sua Marca. Nada contra.

2- As aulas de Literatura que tive em Palmeira d’Oeste

Nossas aulas de Literatura no colégio ORESTES, em Palmeira d’Oeste, eram muito chatas.

Mas apareceu na cidade uma Unidade Móvel do SESC, com um pessoa agitada e cheia de vida, chamada JOEL (que todos passaram a chamar de Joelzinho). O Joelzinho ministrou , no colégio, um curso de duas semanas  chamado “Música, Cultura e Literatura” que virou a cidade pelo avesso. Suas aulas eram todas “com música para ouvirmos e para analisarmos”. Ela colocava discos de Noel Rosa, de Chico Buarque, Vinícius e outros grandes nomes da Música Popular Brasileira. Nós, meninos e meninas, ouvíamos maravilhados.

Nossa professora de Literatura também se inscreveu e assistiu o curso do Joelzinho e suas aulas nunca mais foram as mesmas.  Ela passou a ensinar LITERATURA com as canções de Vinicius e Tom Jobim, Noel Rosa, Caetano, Gil e outros. A meninada do colégio tornou-se assídua e, praticamente, ninguém faltava na aulas de Literatura. Os professores das outras disciplinas – matemática, história, ciências etc – ficaram até com ciúmes das “badaladas aulas de Literatura”.

Eu acredito que essa forma de ensinar Literatura e Língua Portuguesa é um formato muito adequado para os jovens, porque dá vida à matéria, à disciplina, tornando-a muito atraente para o público em idade escolar. Os meninos e meninas podem aprender sobre a CULTURA DE SEU PAÍS e PODEM APRENDER A GOSTAR DE NOSSAS CANÇÕES.

De fato, não vejo como adequado ensinar LITERATURA para jovens de modo tradicional ou convencional. LITERATURA E CANÇÕES podem ser ensinadas juntas, pois isso está muito presente em VINÍCIUS DE MORAES e até em CHICO BUARQUE, que além de ótimo cancioneiro escreveu já alguns romances.

Fica aqui uma dica para quem está propondo MUDANÇAS CURRICULARES no ensino de segundo grau. Senhores, adotem a canção brasileira para o ENSINO DA LITERATURA.

E adotem a CANÇÃO INTERNACIONAL, incluindo BOB DYLAN para ensino da CULTURA GLOBAL.

A meninada não merece aula chata e, com aulas vivas e musicadas, vai se engajar muito mais à sala de aula e certamente a evasão irá cair.

3- O brilho dos Civitas e da Abril com a coleção Literatura Comentada

A Editora Abril lançou nos anos 70, e relançou, nos anos 80 e 90, uma coleção chamada LITERATURA COMENTADA, que tinha livretos sobre ESCRITORES ERUDITOS TÍPICOS DA LITERATURA e também livretos sobre CANTORES, COMPOSITORES E OUTROS NOMES DA CULTURA POP, todos considerados tão relevantes quanto os escritores eruditos.

Vale dizer que a  Abril, dos maravilhosos Civitas, fez coisas incríveis em termos de contribuição à Educação do povo brasileiro. A Marca ABRIL, representada pelo logo que continha uma árvore e que foi reformulado nos anos 70, fez também o seu Planejamento Estratégico e definiu sua missão:  “A Abril está empenhada em contribuir para a  difusão da informação, cultura e entretenimento, para o progresso de educação, a melhoria da qualidade de vida,o desenvolvimento da livre iniciativa e o fortalecimento das instituições democráticas do país”

A ABRIL, com sua missão e seus produtos, deram contribuições relevantíssimas para a Educação e Cultura dos brasileiros. Ela lançou a coleção LITERATURA COMENTADA, que anteviu que a CANÇÃO POP seria elevada à condição de LITERATURA.

A ABRIL, com sua missão e seus produtos, deram contribuições relevantíssimas para a Educação e Cultura dos brasileiros.
Ela lançou a coleção LITERATURA COMENTADA, que anteviu que a CANÇÃO POP seria elevada à condição de LITERATURA.

Nos anos duros da ditadura, a Abril dos Civitas lançou as revistas VEJA e REALIDADE. E lançou também as suas diversas coleções, entre elas a genial LITERATURA COMENTADA, onde já trazia o POP e a CANÇÃO como um tipo específico de LITERATURA.

Na coleção, havia vários nomes ERUDITOS, como Manoel Bandeira, Cecília Meirelis, Machado de Assis, Antonio Calado, Guimarães Rosa, Castro Alves,  Graciliano Ramos, Gil Vicente,  Jorge Amado, Mario Quintana,  Eça de Queiroz,etc.

Mas também havia aqueles que eram os LITERATOS DA CANÇÃO E DA ARTE POPULAR:

Gilberto Gil,  Caetano Veloso,  Chico Buarque de Holanda, Vinícius de Moraes, Noel Rosa, etc.

Compositores que fizeram CANÇÕES, e até um Desenhista-Cartunista, foram considerados AUTORES DE LITERATURA pela equipe da ABRIL dos CIVITAs. Eles escrevem sobre temas de interesse da população e criam vínculos através da música.

Compositores que fizeram CANÇÕES, e até um Desenhista-Cartunista, foram considerados AUTORES DE LITERATURA pela equipe da ABRIL dos CIVITAs. Eles escrevem sobre temas de interesse da população e criam vínculos através da música.

A canção popular, apesar de ser um tipo especial de literatura, difere dela porque é popular de verdade, porque não tem nada do academicismo, do erudito e do difícil de ler. Ela chega ao grande público com seus “poemas musicados”.

Todas as marcas podem se beneficiar com algum tipo de vinculação com a CULTURA POP, pois ela mescla a CULTURA ERUDITA e a CULTURA DO POVO. Ela torna qualquer Marca muito mais relevante e muito mais engajante para as pessoas.

Cecília Meireles tornou-se mais conhecida com a canção de Fagner. João Cabral de Melo Neto tornou-se mais conhecido (inclusive pela esquerda pseudo-culta) com a canção de Chico Buarque de Holanda. O poeta Vinícius de  Moraes ampliou seu público com suas poesias musicadas por tantos parceiros. Depois, fez também centenas de canções, inclusive” Garota de Ipanema” em parceria com Tom Jobim.

Essa canção – THE GIRL FROM IPANEMA – foi escolhida para um disco magistral nos Estados Unidos, onde FRANK SINATRA e TOM JOBIM, juntos, cantam:

Tall and tanned and young and lovely /  The girl from Ipanema goes walking / And when she passes, each one she passes goes: A-a-ah!

Clique para ouvir SINATRA E TOM JOBIM:

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Texto de: Augusto Nascimento, consultor de Branding e Marketing da Innovax-BBI Consultoria, do Grupo BBI. Ficam autorizadas cópias para fins de divulgação um-a-um (exceto publicação), desde que citado este site como fonte, bem como o autor do artigo. Para contatar o autor, ligue para (11) 2338.4939 ou então envie mensagem através do formulário deste site.